quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

COMO COMEÇOU A LEILOARIA, NO MUNDO !!!

CIA DOS LEILOES DO RS

COMO COMEÇOU A LEILOARIA, NO MUNDO !!!

Sir John Hawkins


A coroa inglêsa não queria, em princípio, saber nada das aventuras de Hawkins e também nada do comércio de escravos. Mas, quando a Rainha Elisabeth I tomou conhecimento da contabilidade de Hawkins depois da primeira viagem, houve uma mudança radical transformando-se rapidamente
a Rainha a investir na caçada de escravos de Hawkins. John Hawkins recebeu da Rainha Elisabeth um navio negreiro batizado de ”Jesus” (!) destinado a sua segunda expedicão escravista à África. A John Hawkins foi concedido, mais tarde o título de nobreza por servicos prestados à Grã Bretanha e escolheu como símbolo, o escudo d’armas, um negro escravo algemado e de joelhos!
Durante os séculos XVI e XVII o comércio de escravos continuou a expandir-se a rítimo acelerado. O monopólio exercido por Portugal foi destruido quando o país entre 1580 e 1640 ficou sem Rei e então o Rei de Espanha Filipe I, o herdeiro mais próximo do rei de Portugal, assumiu o trono de Portugal. Até 1640, quando explodiu uma revolta em Lisboa e um novo Rei português foi coroado, o país tornou-se numa provincia espanhola e foi rebaixado como poder naval.
A partir do início do século XVII muitos países apossaram-se de grande parte do comércio de escravos, que neste contexto se constituia nos maiores negócios em todos os mares. O estado de beligerância entre estes países era a relação mais comum em todos os oceanos. A cobica e a inveja sobre os lucros do comércio escravista não conhecia fronteiras. O poder naval da Inglaterra cresceu fortalecendo-se em todo o período. Este país de segunda categoria no que diz respeito ao comercio de escravos começou a produzir mercadorias para vender à Espanha e a Portugal o que lhe deu acesso ao ouro e a prata proveniente do comércio escravista e das colônias na América. Este facto criou as condicões para um processo de industrializacão na Inglaterra que transformou a Inglaterra numa das potências mais fortes da Europa.
O momento decisivo, de quem deveria tomar a lideranca sobre o comércio com a África, naquele momento quase exclusivamente de escravos, surgiu com a guerra de sucessão do trono espanhol, entre 1702 e 1714, após a morte de Carlos II. O império Espanhol naquela época era o maior do mundo, com posses na Holanda, Itália, América, África e Ásia. A pérola deste império era o ”assiento”, o contrato que dava ao possuidor o direito a todo comércio de escravos entre a Espanha e as possessões na América, a origem de riquezas enormes.
Felipe de Anjou, o Duque francês escolhido por Carlos II, tornou-se Rei Felipe V da Espanha com apoio do avô, o Rei da França, Luís XIV. Após o seu coroamento Felipe V concedeu o direito de “assiento” ao seu avô Luís XIV, o que este havia exigido anteriormente. A monarquia de Inglaterra sentiu-se roubada das grandes riquezas e então uma grande guerra se tornou realidade. Durante 12 anos, na Europa e em todos os lugares onde as duas partes se encontravam era uma matança mútua. O primeiro Tratado de Paz foi realizado em abril de 1713, com a Paz de Utrecht, entre a Espanha Inglaterra e seus aliados.
A decisão de Paz pôde ser assinada pelo fato de que a Espanha e Inglaterra, um mês antes haviam acordado num tratado de Comércio, O Convênio do Assiento, que concedia à Coroa da Inglaterra o monopólio de exportacão de escravos da África para a América Espanhola! Com base neste Convênio do Assiento, a Inglaterra desenvolveu-se enormemente durante o século XVIII para se transformar no maior poder imperialista do mundo, uma posicão que a Inglaterra manteve durante no mínimo duzentos anos.

50 milhões desapareceram da África
Quantos milhões de pessoas desapareceram da África por causa do comércio de escravos, entre os anos de 1400 e 1900? Esta questão tem sido objeto de muitos estudos mas não pode ser respondida de forma unívoca. Nunca existiu uma estatística exata, somente estimativas baseadas em dados incompletos.
Mesmo os números existentes estão errados por razões do extenso contrabando. O comércio de escravos era taxado com impostos pesados pelas Monarquias européias e pela Igreja que viviam deste negócio. Os comerciantes de escravos tentavam quase sempre evitar o pagamento de deveres alfandegários subornando os funcionários alfandegarios dos mercados de escravos. Estes permitiam aos comerciantes de escravos utilisarem-se das marcas das diferentes Companhias Escravistas com as quais marcavam os escravos que passavam assim sem pagar impostos ou taxas de alfândega. O contrabando de prisioneiros vendidos como escravos é estimado ser uma terça parte de todas as carga.
Mas, quantos eram eles, na sua grande totalidade? Nos círculos de pessoas que dedicaram a vida a estudar a história do continente Áfricano, avalia-se a sifra de 15 milhões como um mínimo absoluto e 50 milhões como a mais plausível quantidade de escravos vivos que chegaram à América. (sòmente em Cuba desembarcaram durante um período de 50 anos, entre 1791 e 1840, um milhão de escravos!)



Prisão de pescoço



No mínimo 50 milhões de escravos

Mas, esta estimativa de número de escravos que chegaram vivos a América é evidente não a mesma quantidade que foram embarcados nos navios negreiros. Muitos morriam durante a viagem, calculados um mínimo de 20 por cento. Muitas vezes estas siffras eram muito maiores.
A estes trágicos números devemos acrescentar todos aqueles que foram assassinados durante as expedicões de saques e nas guerras promovidas pela caça ao escravo que passados vários séculos abarca grandes regiões no continente Áfricano. Chega-se à conclusão que o comércio de escravos, calculado por baixo, deve ter custado a África no mínimo 50 milhões de vidas humanas (alguns investigadores calculam em 100 milhões), o que corresponde à quarta parte da população negra da África em meados do século vinte (1950), quando estes estudos foram realizados.



O comércio de escravos deu origem ao industrialismo


O comércio escravista liquidou as estruturas sociais na África.
Em meios dos anos do século XVII (de1600) as colónias européias no récem descoberto continente americano conheceram um renovado e poderoso desenvolvimento. Enormes quantidades de escravos africanos foram para ali transportados afim de tomar parte na produção das minas de ouro e prata, nas plantações de cana-de-acucar, tabaco, algodão e muitas outras.
Não menos necessitava-se constantemente de novos escravos uma vez que a capacidade dos escravos era utilisada sem escrúpulos tendo como cosequência muitas mortes. A mortalidade na colónia Holandesa de Surinã, nas Índias Ocidentais, era por exemplo, tão alta que toda a populacão sadia de escravos, cerca de 50 mil pessoas, era exterminada totalmente cada 20 anos!
Quando a procura de escravos aumentava na América, intensificava-se também a caçada humana dos mercadores de escravos no continente africano. Os comerciantes de escravos conseguiam escravos de três diferentes maneiras: ataque pirata, alianças de guerra e parcerias pacíficas. O ataque pirata eram expedições de pilhagem e guerra onde os negreiros tinham as suas bases nos navios. O ataque pirata transformou-se rapidamente em parceria de guerra. Os europeus desembarcavam em terra com grupos armados de soldados para apoiar um rei africano contra os seus rivais. Em regra os comerciantes europeus de escravos recebiam como espolio de guerra o direito de compra sobre os prisioneiros dos povos vencidos, que eram transportados para a América como escravos.
Este género de parceria dos primeiros mercadores de escravos foi feita pela primeira vez pelo inglês John Hawkins. Na sua quarta viagem, quando ele estava na costa da Guiné e tinha capturado mais de 150 prisioneiros, ocorreu algo determinante para o futuro do comércio de seres humanos. Nas Costas de Serra Leoa Hawkins foi contatado por um chefe tribal que desejava o apoio de Hawkins na guerra contra outros reis na região. Como forma de pagamento Hawkins deveria receber todos os prisioneiros que fossem capiturados na guerra. Sob o comando de 300 ingleses, Hawkins desembarcou e junto com o chefe e seus homens iniciou a batalha contra os inimigos do cacique. A destruição e mortandade causada pelos homens de Hawkins que se utilisavam de armas de fogo foi terrível. Mas os ganhos foram muito ao gosto de Hawkins. Ele levou consigo mais de 300 prisioneiros, que resultou em grandes lucros no momento da venda no Caribe.
Com o passar do tempo os europeus aprenderam a provocar rivalidades entre os povos africanos e a utilisarem-se delas para levar a um estado de guerra para conseguir mais escravos. Nestes casos, os europeus apoiavam por exemplo uma das partes fornecendo armas em troca do direito de comprar os escravos entre os prisioneiros. Dessa forma, e atraídos pelas mercadorias dos europeus que os comerciantes de escravos pagavam, alguns reis africanos tornaram-se gradualmente parceiros dos mercadores de escravos da Europa.
Mas a parceria transformava-se na maioria dos casos na dependência dos reis africanos para com os mercadores de escravos. Se alguém desejava alguma mercadoria européia que os comerciantes de escravos tinham a oferecer, existia sómente uma forma de consegui-la - fornecer mais escravos. A perseguicão para obter escravos expandiu-se para maiores regiões e mais profundamente no interior do continente.
Os comerciantes de escravos pagavam inicialmente na maioria das trocas, com cavalos, utensílios de cobre e tecidos, mas gradualmente estes foram substituidos quase na totalidade por armas de fogo e alcool. Armas de fogo, o mosquete, transformou-se numa necessidade absoluta para os povos de Africa que queriam garantir a sua liberdade. Sem armas de fogo, que apenas poderia ser conseguida em troca de escravos, os reinos fortes transformavam-se numa presa fácil para reinos mais fracos, mas armados, na busca de escravos.
Finalmente, em muitas regiões do continente africano, todos os povos foram obrigados a adquirir armas de fogo. Em consequência todos estavam obrigados à busca de escravos. Durante muitos séculos, do começo do século XV (1400) ao final do século XIX (final de 1800), espalhou-se em grandes regiões da África a instabilidade e a inseguranca. Quase em todas as partes existia o risco iminente de alguém ser raptado e vendido como escravo para os mercadores europeus. A estrutura das sociedades entraram em decadência e destruiram-se, as pessoas foram degradados e brutalizados pelos negócios sem escrúpulos.
Este fenômeno pode ser observado no desenvolvimento da arte, de formas muito sofisticadas no século XV, para exposições mais duras a partir do final do século XIX. O desenvolvimento Social foi paralizado em muitas regiões da África e velhas nações e culturas desapareceram. Os poderes tradicionais dos reis, tradicionalmente dependentes de um sistema de conselheiros e hierarquias, modificou-se para se tornar despótico e sem fronteiras. Um resultado desta nova siutação foi que a oposicão política e a rebeldia pudia desaparecer pela venda para os mercadores de escravos. A insegurança aumentou gradativamente e as pessoas foram obrigadas a refugiar-se em regiões inacessíveis. A produção da sociedade diminuiu ao mínimo, a agricultura foi destruida em grandes regiões, sim, pois qual o camponês que queria plantar e trabalhar uma terra que não sabia se iria colher?

O comércio com seres humanos

O comércio de escravos foi uma dura e impiedosa perseguicão até o profundo interior da África. Os homens e mulheres raptados e aprisionados eram obrigados pelos seus captores a longas marchas em direção à costa, para os mercados de escravos ou navios negreiros. Isto significava várias semanas ou meses a pé com carência de comida e agua. Os prisioneiros eram originarios principalmente da parte ocidental da África, do Senegal, ao norte, a Angola ao Sul. Durante o Século XIX (de 1800) vieram também muitos escravos da África oriental.
Na chegada ao mercado de escravos os prisioneiros eram encarcerados em barracões ou prisões. Alí ficavam até que os caciques e os europeus entrassem em acordo sobre o preço de uma “pièce de Inde”, o preço por um homem normal, sadio de 20 anos. Dois homens de trinta anos correspondiam em geral ao preco de uma pièce, da mesma forma que dois rapazes de 10 ou 15 anos ou duas mulheres.
Após muitos dias de caminhada a pé, algemados, os prisioneiros chegavam geralmente extenuados. Acrescente-se o fato de que muitos também tinham lutado pelas suas vidas, talvez presenciando a morte de entes queridos e vendo as suas casas serem queimadas pelos caçadores de escravos. A mortalidade nas prisões dos mercados de escravos era por essas razões muito alta.
No dia em que os prisioneiros iam ser vendidos para os europeus, eram retirados para fora das prisões e levados a um pátio aberto, completamente nus, homens mulheres e criancas. Alí eram examinados minuciosamente por um médico de bordo dos navios. Os que estavam acima da idade de 35 anos, cabelos brancos ou de alguma forma demonstrassem sintomas de doença, era colocados de lado. Só os melhores eram eram aceitados para serem comprados.

Marcação com ferro em brasa



Todos os prisioneiros comprados eram marcados no peito ou nos braços com um ferro em brasa, imprimindo as diferentes marcas das companhias de escravos. A Companhia Afro-Britânica tinha a marca DY, Duke of York, a defenicão formal da monarquia Britânica. A monarquia de Portugal usava uma cruz de Cristo. A grande Sociedade Bíblica, The Society for Propagation of Gospel, marcava ”seus escravos” com as iniciais SPG. A firma inglesa Companhia da Guiné utilizava as iniciais GHC.

A cruz de Cristo da monarquia de Portugal
(aqui numa foto da Torre de Belém, Lisboa
a mesma cruz nas velas dos barcos portugueses)



O ferro de marcação de escravos da Companhia da Guiné


Após serem marcados os prisioneiros eram levados de volta à prisão, onde esperavam até serem levados para os navios negreiros que esperavam no porto. A viagem podia ser para uma fortaleza ou depósitos de escravos, construídas pelos países europeus ao longo da costa da África ou diretamente para a América. As primeiras grandes Fortalezas nas costas ocidentais da África chamavam-se São Jorge da Mina, mais tarde batizada de Elmina. Foi construida pelos portugueses entre os anos de 1481 a 1489, a uma distancia de 50 quilometros ao sul do Cape Coast no atual país Gana. O Rei de Portugal, D. João II que decidiu construir o forte enviou navios com 500 soldados, 100 trabalhadores de construção e tudo que era necessário em material de construção. O forte foi provido com torres altas, fosso cavadas na rocha e armado com 400 canhões. O forte Elmina foi construido para manter no cativeiro mil escravos! O tamanho e as propriedades da fortaleza demonstram claramente os grandes negócios com escravos que se planificavam. O rei D. João II recebeu do Papa Xisto IV o perdão de todos os pecados, para todos os cristãos que morressem em S. Jorge da Mina.
A viagem para a América era para as pessoas prisioneiras, uma viagem para o desconhecido. Nenhum dos escravos sabia o que aconteceria e muitos nunca antes tinham visto o mar. A bordo dos navio de escravos a vida era um inferno indescritível. Os escravos eram aprisionados com algemas de ferro, nas mãos e nos pés e obrigados para baixo para um logar nos porões do navio. Alí eram postos muito juntos, em um espaço pouco maior do que o proprio corpo ocupava. Os Porões eram separados em vários pisos, com uma altura, no geral, de mais ou menos 80 centímetros, nunca mais de um metro. Aqui os escravos eram obrigados a estarem deitados ou asentados. No navio negreiro inglês Brooks, a altura dos pisos onde os escravos eram encerrados era de 78 centímetros. O espaco para cada escravo masculino, no navio Brooks, era de 183 cm de comprimento por 40 cm de largura. Para as mulheres 175 x 40 cm, para rapazes 152 x 35 cm e meninas 137 x 30 cm. Em muitos navios negreiros os escravos era também presos com algemas em volta ao pescoço.

Transporte de escravos de África para América


A mortalidade nos navios negreiros era aterradorament alta, 20 a 30 porcento dos prisioneiros morriam durante a travessia. Ás vezes os escravos faziam motim contra este terrível destino e algumas vezes conseguiram tomar os navios. Na maioria dos casos os comerciantes de escravos derrotavam os escravos revoltados que eram punidos em banhos de sangue sádicos.

O Triângulo do Comércio

Quando alguém pára e reflete através da incrível quantidade de seres humanos que foram vendidos como escravos, principalmente durante 1650 a 1850, pode-se compreender que isto era uma parte de um processo muito grande. Milhões de pessoas foram compradas em África como escravos em troca de mercadorias européias, com armas de fogo, tecidos, barras de ferro, utensílios de cobre ou aguardente. Essas pessoas foram transportadas posteriormente para a América, onde trabalhavam gratuitamente para os proprietários de minas ou plantações e criaram no continente americano poderosa riqueza em mercadorias como açucar, tabaco, algodão, rum, ouro, prata e pedras preciosas. Essas mercadorias eram transportadas por sua vez para a Europa e vendidas de forma muito lucrativa. Uma parte do lucro dessas transacões era reinvestido nas fábricas na Europa e novas mercadorias européias eram transportadas para a África para a compra de mais escravos. A este comércio, usa chamar-se de o Triângulo do Comércio ou o Círculo do Comércio.

Triângulo do Comércio




O papel especial dos escravos neste ciclo de criacão de riqueza não deve ser esquecido. Os escravos não eram negros ignorantes e preguiçosos que só serviam para serem utilisados como simples ferramentas, como dizem historiadores racistas. Os escravos eram na verdade gente trabalhadora que tinah sido raptada, camponeses e artesãos com um espectro muito amplo de conhecimento profissional. Os seus conhecimentos em diferentes profissões foram na realidade muito decisivo para o progresso nas minas e plantacões. Eles trabalhavam como carpinteiros, pedreiros, agricultores, calcetadores, ferreiros, pintores, marceneiros, ourives e artistas e muito mais. A destreza e o conhecimento básico profissional tinham eles trazidos das suas terras de origem.
Detrás do Triângulo do Comércio estavam as monarquias européias, a Igreja e em parte outros financiadores. Os reis vendiam autorizações para a prática do comércio de escravos ou financiavam esse comércio com dinheiro próprio. Por outro lado membros das classes superiores, nobreza ou a classe burguesa, formavam companhias com a bencão da Casa Real, compravam a licença real e entravam no negócio do comércio de escravos. Muitos deles eram proprietários de navios ou estaleiros de barcos, fabricantes de armas ou tecidos na Europa e proprietários de minas e plantações na América.
O industrialismo nasceu do Triângulo do Comércio.
O Triângulo do Comércio era um negócio muito lucrativo, um comércio com lucros triplicados. A receita da Grã Bretanha proveniente do Comércio das Índias Ocidentais, ao término do século de 1700, foi quatro vezes maior do que a renda do comércio desse país com todo o resto do mundo. Os lucros eram inconcebívelmente grandes e o comércio expandia-se rápidamente. A quantidade de navios que traficavam os mares do mundo aumentou enormemente durante um tempo relativamente curto. No porto de Liverpool, no ano de 1719 existiam registrados 18.371 toneladas de navios. No ano de 1792 a quantidade de tonelagem registrada era de 260.382.
O crescimento era necessário porque o transporte de mercadorias aumentou consideravelmente durante estes setenta anos. Como um exemplo pode-se utilisar os números de importação do açucar para a Inglaterra e a exportação da Grã Bretanha de produtos de algodão. A Inglaterra importou meio milhão de tonelada de acucar no ano de 1720. Ao final do século de 1700 a importacão anual era cinco vezes maior. Em 1701 a Grã Bretanha exportou produtos de algodão no valor de 23.000 libras. No ano de 1800 a exportacão foi de 5,5 milhões de libras!
A cidade de Liverpool cresceu com a construcão de navios, Manchester e Lancashire cresceam com a fabricação de tecidos baratos de algodão para a compra de escravos, e Birmingham cresceu com as forjas de armas e a exportacão de milhões de musquetes para a África.
A rápida expansão económica do Triângulo do Comércio criou as condicões para a revolucão industrial em Inglaterra. A necessidade de maiores quantidades de mercadorias de consumo baratas conduziu a novos inventos na indústria que por sua vez levou a um crescimento e renovação da produção. Especialmente nota-se isto na indústria textil nos finais do século de 1700, onde se sucediam uma após outra, as invenções e novas máquinas.
Desta maneira surgiu uma nova classe de grandes comerciantes e magnatas da indústria subindo ao topo da sociedade. Essa classe era enormemente rica, esbanjava dinheiro com muito gosto e comprava para si poder político, por exemplo cadeiras no Parlamento Inglês, de onde podia exercer influência nos négócios do país e nas condições para o Triângulo do Comércio.
Mas toda essa riqueza que foi criada no Triângulo do Comércio tem uma outra face, uma face muito suja. Na África, o comércio de escravos causou a miséria e destruição de reinos e culturas e a estagnação de grande parte da produção tradicional e artesanato que aos poucos foi diminuindo e quase desapareceu totalmente. Um exemplo. A fabricacão africana de tecidos, famosa por sua boa qualidade e que os países da Europa realmente importavam antes de o comércio de escravos, sucumbiu e desapareceu quando o tecido barato vindo da Europa invadiu os países africanos.
Com o aumento do poder opressor dos paises europeus a situação tornou-se muito pior. Os europeus obrigaram ao fim da produção e desenvolvimento das sociedades na África para conservarem o seu poder e seus mercados. A transferência de novas técnicas européias para países na África era totalmente excluida, apesar de que isto foi prometido pelos monarcas e homens de negócios europeus e apesar dos pedidos de ajuda dos reis Áfricanos no que diz respeito a médicos, carpinteiros, professores, padres, construtores de barcos e tudo que eles achavam necessário para abrir novos caminhos para o futuro da África.
Também na Europa o Triângulo de Comércio gerou filhos, o industrialismo, uma miséria nunca antes observada. Para as grandes massas de operários industriais a vida era uma verdadeira miséria. Tanto para adultos como para criancas a jornada de trabalho era quase infinita, acima de 16 horas, o pagamento era terrivelmente baixo e as condicões de trabalho inconcebíveis. A pobreza nas cidades industriais da Europa era pior que nunca. As riquezas do Triângulo de Comércio eram acessíveis somente aos ricos. Para os pobres na Europa as transformacões da sociedade causadas pelo Triângulo do Comércio foi como uma nova escravidão.
No livro ”A situacão da classe trabalhadora na Inglaterra” de Friedrich Engels podemos ver um quadro da situacão dos trabalhadores no ano de 1845, uma leitura em verdade inimaginável.

A Suécia e o comércio de escravos

(Nota do Autor - A Suécia é o único país da Europa em que a versão oficial da história tem negado a participação da classe dominante no comércio de escravos. Mas na realidade a coroa sueca também entrou na caça ao homem, embora de uma maneira imcomparávelmente mais pequena do que os outros países da Europa. Como este texto foi originalmente escrito para um jornal sueco e para o público sueco, foi o autor obrigado a investigar os fatos corretos e fazer a sua narração num capitulo especial. Esse capitulo é aqui incluído pelo seu interesse histórico e não por a Suécia ter tido um papel preponderante no comércio de escravos.)

As riquezas da África, também atraiu a classe dominante sueca. Em meados do Século de 1600 comecou uma luta por colónias, nas Costas dos Escravos ou Costa do Ouro, nos mares do país que se chama atualmente Ghana, para encher com ouro, do comércio de escravos, os cofres da classe dominante sueca. Tudo iniciou, no ano 1647, quando Louis de Geer tomou conhecimento das possibilidades económicas que o tráfico da África poderia dar. De Geer, comprou da Rainha sueca Kristina uma carta de navegacão real que dava direito a transitar para a África e viajar com dois navios na caça a escravos, ouro e marfim. Como meio de pagamento de Geer utilisava-se de mercadorias, utensílios de latão, anzois de pescar e aguardente.
Estes primeiros lastros dos barcos deram grandes dividendos, o que levou ao próximo passo. No ano de 1649 fundou-se a Companhia Sueco-Africana com Louis de Geer como o principal proprietário. O objetivo, desta vez, não era o negócio de troca simples. A Companhia foi formada para tornar realidade o sonho de uma colónia sueca.
Como líder da primeira expedicão da Companhia foi nomeado um aventureuro alemão, Hendrik Carlof, com experiência da Costa da Guiné, onde havia prestado serviços sob o comando holandês. No ano de 1650, Carlof chegou ás costas marítimas de Ghana, onde, como chefe da expedição sueca acordou um tratado com o rei de Fetu, um reinado junto a Costa. Chegaram-se a um acordo da construção de duas fortificações e algumas estações de comércio. O forte, de nome Carlsborg, começou a ser construído juntamente com uma parte das estações de comércio ao longo da costa e o outro forte, Christiansborg, em Accra, na atual Ghana. A vida para a guarnição sueca não foi pacífica, pelo contrário cheia de combates contra holandeses e ingleses que queriam a mesma presa. Isto foi uma desvantagem para o comércio e para os lucros da Companhia.
Após a morte de De Geer a Companhia Sueco-Africana foi reorganizada no ano de 1654 sob a direcão dos filhos de De Geer. Foi uma mudança nos destinos da Companhia. Carlof, não se entendia com a direcão da Companhia, com os filhos de De Geer, que tentaram engana-lo em questões de dinheiro. Ele desertou e refugiou-se na Dinamarca. Aí conseguiu arranjar uma autorização de corsário com objetivo de conquistar a possecão sueca na Costa da Guiné para a Dinamarca.
Em 1658 Carlof aportou novamente à Costa da Guiné. Com ajuda de um chefe tribal africano conseguiu vencer o comandante da guarnicão de Carlsborg, o sueco Von Krusenstierna, e tomar o forte, as estações de comércio e Christiansborg. Em consequência a Companhia Sueco-Africana perdeu todas as posseções e a história do poder colonial sueco deveria ter chegado ao fim.
Uma última tentativa existiu todavia. O cacique africano que ajudou Carlof contra os suecos, invandiu Carlsborg, que os dinamarqueses neste altura já tinham vendido aos Holandeses, oferecendo a venda do forte à Companhia Sueco-Áfricana. A companhia comprou mais uma vez Carlsborg muito caro em troca de moeda de ouro e os negócios recomecaram a rolar como antes. Mas o sucesso da presenca colonial da Companhia não durou muito tempo. Os holandeses atacaram Carlsborg pouco depois e o forte caiu depois de 13 meses de cerco. A aventura colonial sueca na África Ocidental chegou a um fim definitivo.

Mas o Comércio de escravos? A Suécia esteve envolvida?
Aquí a narativa histórica divide-se. Alguns historiadores suecos gostam de afirmar que os suecos jamais negociaram com escravos. Isto, no entanto, não é verdade. Fazendo um exame detalhado dos livros da Companhia Sueco-Africana pode-se constatar que a companhia possuia escravos como força de trabalho nas fortificações e nas estações de Comércio. Estes escravos foram comprados pela companhia. Além disso foram mandados para a Suécia em navios suecos, escravos africanos destinados ao trabalho nos feudos da nobreza sueca. Com respeito ao comércio de seres humanos para a América é um facto que o tráfico se fazia em navios suecos e dinamarqueses da costa ocidental da África para as Índias Ocidentais por iniciativa de empresas suecas e dinamarquesas.
Porém a verdadeira erupcão do comércio organizado de escravos ocorreu sómente a partir do século XVIII (de 1700). No ano de 1775 a Dinamarca comprou três ilhas nas Índias Ocidentais, chamadas de ilhas virgens Saint Croix, Saint Thomas e Saint Jan. Nas grandes plantacões destas ilhas a Dinamarca utisou escravos vindos das suas colónias na África.
A Suécia não queria ser pior do que os seus vizinhos e providenciou em conseguir para si uma colónia nas Índias Ocidentais. Em julho de 1784 o Rei Gustav III comprou a ilha de Saint Bartélemy da Franca, em troca de privilégios comerciais na cidade de Gotemburgo. Em março de 1875 a ilha de Saint Barthélemy foi posta sob a direcão do comandante sueco Salomon von Rajalin. Ao mesmo tempo organizava-se na Suécia a Companhia das Índias Ocidentais, que recebeu grandes direitos comerciais e poder em Saint Barthélemy.
O Rei Gustavo III declarou a ilha Porto Franco, porto livre, aberto para todos os navios do mundo. Esta medida veio a revelar-se de grande proveito. Ao final do século XVIII (final de 1700), surgiu um período de muita pertubação, nas Índias Ocidentais com guerras constantes entre a Inglaterra, França, Holanda e América do Norte. A guerra não diminuiu no entanto a necessidade de contactos comerciais entre os capitalistas dos países beligerantes. Ao contrário, a necessidade do comércio tornou-se maior. A politica de neutralidade sueca juntamente com a declaracão de Gustavo III de porto livre, fez de Saint Barthélemy, principamente a capital Gustavia, um ponto de convergência para comerciantes e transações comerciais nas Índia Ocidentais.



Gustav III deu inicio ao comércio de escravos na Suécia

Um outro factor que foi decisivo para o sucesso econômico foram as modificacões feitas na legislacão que legalisaram o comércio de escravos. Por proposta do Comandante Rajalin, o Conselho de Governo e o rei Gustav III determinaram no ano de 1785 que o comércio de escravos seria permitido em Saint Barthélemy afim de que os habitantes da ilha pudessem participar do Comércio de escravos. ”Uma situação necessária para o cultivo da ilha e a ampliacão das plantações”, foi dito na ocasião.
Gustavo III foi para a história como um Rei que introduziu o comércio de escravos num país que 500 anos antes havia abolido a escravidão. Como privilégio da Companhia das Índias Ocidentais a partir de outubro de 1786, a Companhia obteve o direito de fazer negócios de comércio de escravos, na costa da África. O fato é que o comércio de escravos foi sancionado oficialmente sem que nenhum membro do Conselho de Governo se opusesse.
É interessante notar que a unanimidade absoluta entre os representantes da classe dominante tinha muito pouco apoio entre o povo. Neste período a opinião contra o comércio de escravos começou a crescer fortemente em todo o mundo e os ventos de mudança espalharam-se até à Suécia e ganharam a maioria do povo sueco.
Em Saint Barthélemy a situacão era tal que a nova legislacão implicou que o comércio de escravos foi um dos grandes comércios da ilha sueca. O comércio com seres humanos em navios suecos, partia da África Ocidental, Guiné e Angola para Saint Barthélemy e as Ilhas Virgens, possecões da Dinamarca. Os africanos que não podiam ser vendidos para os proprietários das plantações dessa ilhas, eram aprisionados em Saint Barthélemy para serem oferecidos para venda em outras plantações nas Índias Ocidentais. Para este fim existia um depósito de escravos na rua Östra Strandgatan em Gustávia, que era propriedade do mais bem sucedido empresário de Saint Barthélemy, Adolf Hansen, representante da Companhia das Índias Ocidentais na ilha. Hansen era também proprietario de navios de escravos.
Tem-se debatido se a Companhia da Índias Ocidentais oficialmente participava do comércio de escravos. As formalidades jurídicas são por vezes difíceis de compreender. Mas para além do facto de que o representante da Companhia era um dos mais activos no comércio de escravos na ilha, existem outras provas. Um dos maiores acionistas da companhia (o maior era o príncipe herdeiro Gustav Adolf, depois rei Gustav IV Adolf), o diretor executivo Lars Rejmers P:son, dedicava-se ao comércio de escravos para Saint Barthélemy e posteriormente para outras ilhas nas Índias Ocidentais inclusive Havana. Rejmers participou em parceria com vários empresários da ilha utilisando-se da Administracão da Companhia para as transações economicas relacionadas com o comércio de escravos.



Tais eram negócios, de muitos êxitos neste local para todos os contrabandistas e países em guerra. Durante o período em que a guerra grassava na região, Gustávia teve um progresso indescritível. De ter sido quase inabitada em 1785, Gustávia com seus 5.000 habitantes transformou-se no ano de 1800, numa das maiores cidades da Suécia, depois de Estocolmo, Gotemburgo, Karlskrona e Norrköping (comparado-se a Gävle com 5.400 habitantes ou Uppsala com 5.105). O maior negociante na ilha era como foi dito a Companhia Sueca das Índias Ocidentais fundada em 1786. No ano de 1806 os negócios da Companhia passaram a ser propriedade do estado sueco para seis anos mais tarde, em 1912, passarem à propriedade da Casa Real Sueca.




Karl XIV Johan fez fortuna com os lucros do comércio de escravos


As receitas comerciais de Saint Bartélemy foram transferidas após o ano de 1812 para a Fundacão Barthélemy, da propriedade pessoal dos reis suecos, a partir de 1818 do rei Karl XIV Johan fundador da actual dinastia, os Bernadottes. Os rendimentos proviam também das taxas alfandegárias e impostos portuários, que na maior parte eram dos barcos negreiros e dos impostos do comércio de escravos. Até mesmo os dinheiros proveniente da venda de escravos fugidos de outras ilhas ou negros e mulatos sem documentos de identidade, os quais eram aprisionados por órdem do governador e vendidos no mercado de escravos, eram pagos à Fundacão Barthélemy.


Dois anuncios no jornal Report of Saint Bartholomew de dois homens africanos negros, Richard Crump e Joseph Raphae,
postos à venda pelo governador da ilha, à ordem do rei sueco.



Mas não há sorte que dure eternamente.
Com o andar dos anos, as guerras existentes na região foram acabando e Saint Barthélemy e a cidade e o porto de Gustavia deixaram de ter interesse para a realização de negócios pouco claros. Além disso o comércio de escravos estava a acabar, tendo a França proibído o comércio em 1794 e a Inglaterra em 1807, sendo os barcos dos negreiros confiscados pela marinha inglêsa a partir desta data.
A casa real dinamarquesa foi também obrigada a proibir o comércio de escravos. Esta medida teve efeitos contraditórios e foi a última tábua de salvação dos negreiros suecos e dinamarqueses. Em março de 1792 saíu o decreto do governo dinamarquês a proibir o comércio de escravos a partir do 1 de Janeiro de 1803, o que deu origem a uma revolta dos donos de plantagens nas ilhas dinamarquêsas. Para evitar este problema, a coroa dinamarquêsa decidiu dar empréstimos a juros muito baixos, o chamado empréstimo para negros, para os donos das plantagens poderem comprar grande número de escravos antes da lei contra a escravatura entar em vigor. O resultado foi uma grande compra de escravos num curto periodo de tempo, negócio que foi feito por negreiros suecos e dinamarquêses. Mas apesar disto o comércio em Saint Barthélemy começou a cair até desaparecer quase completamente.
O último golpe veio em 1831 quando a Inglaterra abriu os seus portos nas Índias Ocidentais aos barcos americanos. A redução de lucros que veio daí, originou pela parte da coroa sueca a decisão de vender a ilha de Saint Barthélemy, que veio mais tarde a voltar para a posse da França.
Antes da venda ser efetuada foi feito um plebiscito entre os habitantes sobre a preferência de a ilha ser sueca och francêsa. Este plebiscito foi certamente para a história como um resultado único. Todos os habitantes menos um votaram pela França! Assim ficou demonstrado que a propaganda de que os habitantes tinham um amor pela Suécia e a casa real sueca era uma mentira total.
O plebiscito foi o fim da história das possessões coloniais suecas nas índias ocidentais. Em 16 de Março de 1878 a ilha de Saint Barthélemy voltou a ser francesa, 94 anos depois de a Suécia a ter comprado.

O racismo e o comércio de escravos
Os efeitos do comércio de escravos e do comércio do triangulo nos países europeus e africanos e mais tarde nos países no continente americano pôem questões importantes sobre a natureza dos contactos entre as pessoas aí existentes. De que maneira se viam as pessoas de diferentes continentes umas às outras? Como era o contacto entre negros e brancos e mais tarde entre estes e os índios no continente americano? Sem nos aprofundarmos no tema, o que requeriria uma explicação extença fora das possibilidades deste texto, podemos no entanto fazer algumas apreciações históricas.
Os primeiros contactos entre os europeus e os africanos, feitos pelos portugueses, foram principalmente a caça ao homem, a caça aos escravos impulsionada pela sede da riqueza.
Os portugueses começaram por roubar e saquear, mas quando os reis portugueses encontraram os seus irmãos de classe em África começaram a comerciar com esses reis africanos num intercâmbio entre partes iguais. As classes dominantes branca e negra viam-se uma à outra mais ou menos da mesma maneira, uma mistura de curiosidade e medo e ao mesmo tempo uma oportunidade de fazer bons negócios e aumentar a sua riqueza. A classe inferior nos dois continentes era para ambas as classes dominantes o que sempre tinham sido, simples atributos de trabalho. No início dos contactos entre portugueses e africanos a sul do deserto do Saará o racismo era uma ideia desconhecida.
Com o andar dos tempos e depois de muitos anos de comércio de escravos a maneira como os europeus viam os africanos modificou-se totalmente. Uma mentalidade de gente dominante cresceu entre os brancos e os negros deixaram de ser considerados como pessoas. O comércio de escravos foi a causa desta transformação impulssionada por um lado pela caça ao homem em África e por outro pelo interesse comercial dos europeus e a tentação dos grandes lucros.
Vejamos o que significava isto em África. O reis e chefes negros que tinham começado a vender escravos aos europeus em troca de mercadorias europeias, eram no início deste comércio, senhores altivos que dominavam sociedades estáveis e com um certo bem estar. Mas para poderem continuar a mostrar o luxo que as mercadorias europeias davam às suas cortes, eram obrigados a vender aos europeus cada vez maior número de escravos.
Este gênero de venda de escravos sem limites fez que as sociedades Áfricanas se tornassem instáveis e os seus reis e chefes cada vez mais dependentes dos europeus.
Quando os europeus começaram a vender arcabuzes aos reis e chefes africanos este problema aumentou de maneira notável. Adquirir este tipo de arma, dominante às armas tradicionais, tornou-se uma necessidade imperiosa tanto para a caça aos escravos como para a própria defesa. E isto também porque os europeus faziam ativamente intrigas politicas entre os reis Áfricanos para provocarem novas guerras que poderiam resultar em muitos prisioneiros, os quais os europeus poderiam comprar como escravos. A igreja cristã estava sempre comprometida com este tipo de provocação à guerra e como sempre, era um dos apoios principais das casas reais europeas. Deixemos aqui dois exemplos de como este processo crimionoso era feito.
O primeiro vem do reino do Congo, um reino aproximadamente do mesmo tamanho que o reino de Portugal, com o qual os portugueses estableceram contactos em 1482 quando as caravelas chegaram ao estuário do rio Congo. Passados anos, em 1506, o reino do Congo tinha um monarca de nome mani-congo Nzinga Mbemba o qual em 1490 depois de ter estado em contato com os portugueses se tinha convertido à fé cristã e mudado o nome para Dom Afonso. Este rei Dom Afonso reinou durante quarenta anos.



Os europeus encontraram grandes cidades em África por vezes
maiores e mais bem organisadas que muitas cidades na Europa.
Na imagem a cidade de Loango, capital do reino de Loango
na costa da África ocidental, em fronteira com o passado reino do Congo.

Em Portugal estão arquivadas as cartas entre os reis de Portugal e o rei Dom Afonso, sendo por isso as relações entre estes reis bem conhecidas. Estas relações começaram com comércio, ajuda portuguesa em caso de guerra e o pagamento de Dom Afonso aos portugueses com mercadorias africanas e um número reduzido de escravos. Um grande rei como o mani-congo que enviava alguns escravos a outro rei seu igual não era nada de especial, era uma parte da tradição.
As cartas entre os reis mostram que existia uma igualdade de trato entre o ”irmão real em Portugal” e o ”todo poderoso e iluminado rei mani-congo”. Mas Dom Afonso não podia prever as consequencias que o comércio de escravos iria produzir. Nessa altura iniciou-se um processo no qual os chefes locais do país de Dom Afonso ganhavam enormes riquezas, aumentando sempre o comércio de escravos até chegar a um ponto onde já estava fora de qualquer controle. A fé crisã dos portugueses não ajudou o irmão cristão no Congo.
Os pedidos de ajuda que Dom Afonso enviou por carta ao rei de Portugal, para acabar com o comércio de escravos e desenvolver o país com técnica europeia nunca receberam resposta. Dom Afonso foi inclusivamente obrigado a criticar padres e missionários, pedindo que não comprassem tantos escravos e ”vendo o seu devassamento, por amor de nosso senhor Jesus Cristo que, se comprassem algumas peças (negros), que fossem escravos e que não comprassem nenhuma mulher, por não darem mau exemplo nem fazerem o rei ficar em mentira com sua gente”. Isto referia-se ao voto de castidade que os padres e missionários não respeitavam ao contrário do que Dom Afonso tinha ensinado ao seu povo. Para não serem descobertos no seu pecado e crime os padres ameaçavam com a excomunhão a quem relatasse o que se estava a passar.
Durante muitos anos os comerciantes de escravos portugueses continuaram a escravizar todas as pessoas que conseguiam raptar no Congo, inclusivamente jovens pretencentes à casa real congolesa, que eram enviados para Portugal para estudar para padre ou outras profissões e que em vez disso eram vendidos como escravos. A ajuda técnica de Portugal ao Congo nunca foi dada, sendo as únicas mercadorias que os congoleses receberam de Portugal produtos de consumo que depois de consumidos obrigavam à compra de novos produtos, sempre pagos com mais escravos.
No ano de 1526, Dom Afonso fez uma tentativa para restablecer o controlo do comércio de escravos com o fim de o diminuir ou mesmo acabar com o comércio. Dom Afonso escreveu, a este respeito, uma carta ao rei de Portugal na qual denunciava os comerciantes portugueses como ladrões sem consciencia que aprisionavam os filhos e filhas da terra de tal maneira que ”a nossa terra se despovoa toda”. E Dom Afonso continua:
”E para isto evitarmos, não temos necessidade desses Reinos mais que de padres e algumas poucas pessoas para ensinarem nas escolas, nem menos de nenhumas mercadorias, sómente vinho e farinha para o Santo Sacramento, pro que pedimos a vossa alteza nos queira ajudar e favorecer neste caso. Em mandar a seus feitores que não mandem cá mercadores nem mercadorias, porque nossa vontade é que nestes Reinos (do Congo) não haja trato de escravos nem saída para eles”.
Mas o comércio de escravos era uma importante receita para os reis portugueses e foi em vão que Dom Afonso tentou pôr fim a estas transações. O comércio de escravos continuou a aumentar e nos fins de 1540 quando Dom Afonso morreu, o Congo tinha-se transformado numa sociedade em decadencia e caos.